terça-feira, junho 19, 2007

A CORRIDA ESTRANGEIRA PELO ÁLCOOL BRASILEIRO

Num ritmo febril, têm sido anunciadas quase a cada semana novas grandes parcerias, operações de compra e organização de fundos de investimento destinados a colocar dinheiro na produção de álcool no país.

De acordo com a consultoria Datagro, os estrangeiros investiram 2,2 bilhões de dólares no setor desde 2000. A prioridade tem sido colocar dinheiro em negócios graúdos. Da lista das dez maiores empresas do setor de açúcar e álcool no Brasil, quatro já possuem participação de capital estrangeiro: Cosan, Bonfim, LDC Bioenergia e Guarani. Uma quinta companhia, a Santa Elisa, fez recentemente parceria com a americana Global Foods para constituir a Companhia Nacional de Açúcar e Álcool (CNAA), cujo plano é investir 2 bilhões de reais na construção de quatro usinas em Goiás e Minas Gerais.

É fácil entender o motivo de tanto interesse de grupos estrangeiros. Maior produtor mundial de cana-de-açúcar, o Brasil disputa a liderança do mercado de etanol com os Estados Unidos, que faz álcool combustível do milho. A meta dos americanos, reafirmada pelo presidente George W. Bush durante recente visita ao Brasil, é reduzir o consumo de combustíveis fósseis em 20% até 2017. Isso significa que, nos próximos dez anos, somente nos Estados Unidos a demanda por etanol pode atingir 132 bilhões de litros por ano. É mais de três vezes a atual produção mundial de etanol, de 40 bilhões de litros por ano.

Desse total, o Brasil é responsável hoje por uma fatia de cerca de 16 bilhões de litros, mas tem grandes possibilidades de aumentar a participação. É de longe o fabricante mais eficiente, com um custo de produção de 0,22 dólar por litro de etanol, ante 0,30 dos Estados Unidos e 0,53 da União Européia. Além disso, tem área suficiente para multiplicar as plantações e atender ao esperado aumento da demanda nos próximos anos. Segundo a Datagro, a quantidade de cana moída no Brasil deverá aumentar de 473 milhões de toneladas na próxima safra para 700 milhões em 2014. Isso vai exigir investimento em 114 novas usinas -- hoje, o Brasil tem 357 unidades em operação e outras 43 em construção.

Os estrangeiros que estão de olho nesse potencial de crescimento dividem-se em dois tipos: de um lado estão consórcios de empresários e fundos de investimento internacionais, interessados em aplicar recursos num negócio promissor, mas sem envolvimento direto na operação; de outro estão empresas que já atuam no setor sucroalcooleiro lá fora e tradings que participam ou querem participar mais ativamente do comércio internacional de álcool.

Do primeiro grupo, o melhor exemplo é o megainvestidor húngaro George Soros, dono de uma fortuna estimada em 8,5 bilhões de dólares. Ele se tornou um dos sócios da Adecoagro, que comprou a Usina Monte Alegre, em Minas Gerais, em 2006, e está construindo uma nova usina em Mato Grosso do Sul. "Tem muita usina à venda, mas não está fácil achar um bom negócio. Por isso, preferimos construir uma", diz Leonardo Berridi, diretor da Adecoagro. A empresa pretende investir 1,6 bilhão de reais para atingir uma capacidade de processamento de 11 milhões de toneladas de cana até 2015.

Outro investidor que decidiu apostar no etanol brasileiro é o bilionário indiano Vinod Khosla, um capitalista de risco que fez fortuna nos Estados Unidos com suas tacadas certeiras - foi um dos fundadores da Sun Microsystems e financiou o nascimento do Google. Khosla é sócio da Brazil Renewable Energy Company (Brenco), empresa lançada em março por Henri Philippe Reichstul, ex-presidente da Petrobras.

O australiano James Wolfensohn, ex-presidente do Banco Mundial, também é sócio estrangeiro da Brenco, que planeja investir 2 bilhões de dólares na produção de álcool no Brasil. Já entre os fundos internacionais destaca-se o Kidd & Company, que, além de deter o controle da usina da Coopernavi, participa da empresa Infinity Bio-Energy ao lado de outros nomes, como a corretora americana Merrill Lynch e os fundos de investimento internacionais Stark e Och-Zitt Management. Empresa listada na bolsa de Londres, a Infinity é dona de quatro usinas no país. Na primeira captação que fez no exterior, em 2006, arrecadou 300 milhões de dólares exclusivamente para investimentos no setor sucroalcooleiro brasileiro.

"Não foi difícil convencer os estrangeiros a investir em etanol no Brasil, pois eles já tinham a percepção das vantagens comparativas do país", afirma Sérgio Thompsom-Flores, principal executivo da Infinity.

Antes que os investidores de risco entrassem em cena, o setor sucroalcooleiro brasileiro já chamava atenção lá fora. O interesse de grupos estrangeiros foi despertado antes mesmo da explosão da demanda interna de etanol graças ao sucesso dos carros flex, cujo primeiro modelo foi lançado no país em 2003. Os primeiros a chegar aqui foram os franceses Tereos e Louis Dreyfus, em 2000. Controlador das usinas Luciânia, em Minas Gerais, Cresciumal e São Carlos, em São Paulo, o grupo Louis Dreyfus fechou, em fevereiro deste ano, a compra de quatro usinas do grupo pernambucano Tavares de Melo, além de iniciar a construção de uma quinta unidade em Mato Grosso do Sul. O Tereos, por sua vez, tem 6,3% de participação na Cosan, índice que poderá elevar ainda este ano, além de 47,5% na Franco Brasileira de Açúcar (FBA) e 100% na Açúcar Guarani.

Depois dos pioneiros franceses, multiplicou-se o número de grupos estrangeiros interessados em aproveitar o potencial desse mercado. Entre eles estão nomes de grandes multinacionais do setor do agronegócio, como a americana Cargill, com faturamento de 10,9 bilhões de reais no Brasil em 2006.

Em junho do ano passado, a companhia adquiriu por um valor estimado em 75 milhões de reais o controle acionário da Central Energética do Vale do Sapucaí (Cevasa), usina localizada em Patrocínio Paulista, no interior de São Paulo. A Bunge, que já opera como exportadora de açúcar e álcool no Brasil, realizou recentemente investidas para comprar a usina Vale do Rosário, terceira maior produtora de açúcar e álcool do país. Apesar da recusa inicial dos controladores em vender a propriedade, a Bunge ainda não desistiu de fazer um acordo. Até o fechamento deste anuário, porém, as negociações continuavam num impasse.

Outros grupos interessados em entrar no mercado brasileiro são o Pacific Ethanol, que tem como sócio o bilionário Bill Gates, fundador da Microsoft, o alemão NordZucker SudZucker, que atua no setor de açúcar na Europa, e a indiana BHL, dona de usinas em seu país, que contratou a consultoria KPMG para coordenar sua expansão para o Brasil.

"Há sete anos, eu tinha um único cliente em operações de fusões e aquisições interessado no etanol brasileiro. Hoje, 80% de minha carteira é formada por interessados nesse setor", diz André Castello Branco, sócio da área de fusões e aquisições da KPMG. A procura é tamanha que já ocorre uma inflação de preços. Na corrida para não ficar de fora desse mercado, quem quiser adquirir uma usina brasileira deve se dispor a pagar, hoje, mais que o dobro do valor médio registrado em 2005, que era de 40 dólares por tonelada de capacidade de moagem de cana. Mesmo com a disparada nos valores, não faltam interessados em abrir o cofre.

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