segunda-feira, fevereiro 11, 2008

AS TROPAS DO PAC

Carlos Tautz*


Se o governo federal quiser que as obras do PAC em favelas do Rio de Janeiro não fiquem marcadas por violência e mortes, é melhor rever a forma de utilizar a Força Nacional de Segurança (FNS) e ajudar o aliado governador Sérgio Cabral a retomar o controle sobre a sua Polícia Militar.

Ou isso é feito agora, antes de a polícia começar a enfrentar os traficantes para permitir a realização das obras do PAC, ou as favelas voltarão a ser palco de conflitos armados (como em 2007) e as “perdas colaterais” - ou seja, morte de inocentes - mancharão de sangue eventuais boas intenções do governo central.

O número de soldados da FNS no Rio vai aumentar de 600 para mil soldados, podendo ir além disso, adianta o comandante da Força, coronel Luiz Antônio Ferreira, para garantir a realização das obras do PAC em territórios controlados com mão de ferro pelo tráfico de drogas.

Em vista da escala desse contingente, é de preocupar as declarações dos comandantes das tropas. Olhem só, por exemplo, esta pérola típica de governantes de coturno.

“Baile funk em favela é reunião de vagabundos”, disparou a esmo o coronel PM Marcus Jardim (O Globo, 08/02), que assume o 1o Comando da Área da Capital nesta segunda-feira (11).

A frase revela preconceitos de quem enxerga a tropa não como instrumento de segurança da sociedade, mas como guarda pretoriana do Estado e de quem se refugia nas regiões do Rio onde o Índice de Desenvolvimento Humano é equivalente aos melhores bairros de Londres e de Paris.

Explique-me, coronel Jardim, o senhor quis dizer que apenas a favela reune vagabundos? Se foi isso, é melhor o senhor assistir “Meu nome não é Johnny”.

Devo compreender que o funk fora da favela está permitido? No Palácio Laranjeiras ou no Alto Leblon seria permitido? Por que um gênero musical em si deve ser associado à bandidagem? (E olhe que quem escreve esse texto acha funk uma expressão sem qualquer qualidade.) Coronel, o senhor já reparou que os Cacciolas da vida geralmente adoram música clássica?

Nenhum coronel ousa falar sobre uma política de segurança permanente, que garanta a tranqüilidade dos favelados – tão cidadãos quanto quanlquer coronel – além de PACs e que tais, quando o Estado se omite em comunidades pobres.

Vejam se entendi, coronéis. Para vocês: 1. segurança pública, para favelados, significa apenas “incursões” esporádicas, confronto com traficantes e “efeitos colaterais”? ; 2. o objetivo são os resultados espetaculares, do tipo imagens de soldados armados de fuzis e caveirões, “subindo o morro”? Quanto maior emprego de militares entre a população civil, melhor?; e 3. Será que a polícia não consegue separar o joio do trigo e identificar aqueles bailes funk que realmente atraem bandidos e, assim, proteger a população honesta das favelas?

Na zona sul carioca, onde está concentrada a polícia e o PIB do Rio, a situação é diferente. Aliás, eu sugiro aos coronéis um exercício que prova o tratamento privilegiado aos bairros ricos da cidade.

Partam da praia do Leblon e contornem a lagoa Rodrigo de Freitas em direção ao túnel Rebouças. Vocês passarão por uns 10 cruzamentos de trânsito. Em pelo menos cinco deles, encontrarão viaturas da PM em ótimo estado de conservação, em policiamento extensivo, garantindo o sentimento de tranqüilidade à população.

Quando chegarem até o outro lado do túnel, desembocarão no Rio Comprido, bairro de classe média baixa. Por ali, nas ruas embaixo do viaduto Paulo de Frontin, viaturas da PM são vistas somente em dias posteriores a algum caso de violência com grande repercussão na imprensa (e mesmo assim, nunca de madrugada).

No restante da vida, nos bairros de classe média baixa e as áreas pobres da cidade, camburões quase sempre em péssimo estado de conservação muitas vezes só dão o ar da graça em dias e horários marcados, geralmente em locais de comércio vicejante (exatamente como em “Tropa de elite”).

É essa a polícia que promete empregar até três mil soldados, com auxílio da FNS, para garantir o PAC das favelas. Ela se autorregula independentemente do titular das Laranjeiras. O atual, Sérgio Cabral, é ignorado pela tropa, a quem prometeu, e não forneceu, merecido aumento de salário e de condições de trabalho.

Aqui, valem duas observações:

1. Nada contra a a alocação de policiais na zona sul, que por sinal paga ao Município IPTU extorsivo. O exemplo do circuito da segurança Leblon-Lagoa apenas mostra a diferença no tratamento de áreas da cidade em função da renda per capita.

2. Que as áreas pobres do Rio carecem de todo tipo de investimento social não há dúvida. Porém, apenas obras e ações bélicas, muitas vezes necessárias para enfrentar bandidos armados mas descoladas da presença estatal em saúde e educação, não garantem cidadania e democracia.

Ou seja, mesmo quando o governo resolve saldar uma antiga dívida social com o Rio, ainda repete vícios tradicionais. A aí, sobra para o lombo dos pobres apenas a mão forte do Estado, como aconteceu com escravos e indígenas. (Também publicado em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?cod_post=89592)

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