terça-feira, outubro 09, 2007

Robert Fisk

(Publicado originalmente em http://revistatrip.uol.com.br//158/fisk/home.htm

Gringo, vermelhamente gringo, Robert Fisk chega para a entrevista. Senta-se, deixa de lado sua pastinha, quando uma pequena mariposa toca sua cabeça. Ele olha pra cima, para a inalcançável mariposa, e faz uma air metranca.

Tuf! Tuf! Tuf! Tuf! Tuf! Tuf!, simula o franco-atirador, como quem segura uma Kalashnikov. Tão natural sua reação que continuou a se aprumar para a conversa sem um sorriso. Ajeitou o colarinho e, à queima-roupa, disparou: “Estou pronto. O que quer de mim?”. Calma, mister Fisk, um pouco de calma para falarmos da vida que o maior correspondente de guerra vivo leva há mais de 30 anos.

Há 31 anos mora no mesmo apartamento alugado em Beirute, com vista para o Mediterrâneo. O aparente glamour vai pelos ares, já que a rotina de Fisk é esperar as bombas – e ir ao encontro delas. Seu cargo é correspondente do Oriente Médio para o londrino Independent. E sua reputação é um pouco maior que isso. Odiado por governos ocidentais, criticado duramente pela grande mídia norte-americana, famoso por abandonar a imparcialidade em nome do que entende por objetividade: “Minha função é apontar quem é a vítima e quem é o culpado”. Caso raro, quase único, em tempo de jornalistas embutidos no meio das tropas, Fisk cobre a guerra onde as bombas caem. Quer saber dos sobreviventes, não dos soldados. Dos motivos, não do saldo. Fazer história, não notícia.

Fala e escreve em árabe e ganhou a confiança dos grupos que o Ocidente chama de “terroristas” justamente por recusar usar esse termo. Não à toa, foi o único ocidental que entrevistou Bin Laden – três vezes, nos anos 90. Por isso seu nome sempre aparece no xadrez ideológico da “guerra ao terror”, ao lado de Bush, Osama, Rumsfeld, Cheney, Zawahiri, Karl Rove... Em geral, apontando seu arsenal de testemunhos para todos os lados. Fisk tem um problema com autoridade: seja para acusar EUA, Israel e Inglaterra de mentiras e atrocidades ou delatar corrupção e crueldade de governos e grupos árabes, sempre apóia seus textos em inapeláveis valores morais – a obrigação de desafiar o poder constituído e a empatia pelos fracos e oprimidos.

Desde 1974, esteve presente em todos os conflitos que desenharam o mundo. Revolução dos Cravos, Guerra Civil do Líbano, Revolução Islâmica do Irã, Guerra Irã-Iraque, Guerra do Golfo, Kosovo, Bósnia, incursões e massacres israelenses, assassinatos de ministros, premiês e anônimos, invasão soviética no Afeganistão, invasão norte-americana no Afeganistão, a queda de Bagdá e a atual ocupação no Iraque.

Tal currículo calejou a paciência de Robert Fisk. Responde rápido, duro, não mede palavras. Também cuidou de polir sua mente e ego – sabe que, hoje, nome é um tipo de arma. E tal currículo não domou a capacidade de ele indignar-se com a apatia do mundo. Fisk postula: “A CNN, os governos, os presidentes querem fazer a guerra parecer um épico. Guerra não tem a ver com vitória e glória. Guerra nada mais é do que o total fracasso do espírito humano”.

Fisk conversou com a Trip durante sua passagem pelo Brasil, motivada pela quinta Festa Literária Internacional de Paraty, onde lançou a colossal autobiografia romanceada A Grande Guerra Pela Civilização, volume de quase 1.500 páginas.
Como no caso da pobre mariposa, metralha a quase intocável névoa de mentiras e preconceitos que condena o Oriente Médio há décadas. Só não abre a guarda para falar de sua vida pessoal. Até porque, não parece ter uma... nunca quis ter filhos nem casar, não fala de namoradas, nem sente o cheiro de férias. Não sorri para fotos, recusa deixar a pastinha que carrega para um retrato. “Não sou ator, sou jornalista”, define-se, enfim, revelando a vocação sobre-humana de cavar verdades para que os outros possam viver, com filhos e amores, em um mundo mais seguro.

Quando o senhor decidiu virar jornalista?
Quando eu tinha 12 anos só passava um filme por semana na TV. Um dia vi em nosso televisor preto-e-branco um filme chamado Correspondente Internacional, do Alfred Hitchcock. Era a história de um jornalista do Daily Globe, que é enviado para a Europa na iminência da segunda guerra. Ele vê o assassinato de um ministro europeu, é perseguido por espiões alemães, dá cobertura para agentes ingleses, fica com a mulher mais linda do filme. Para um garoto de 12 anos parecia um trabalho e tanto, até porque ele continua vivo. Daquele dia em diante eu quis ter essa vida excitante –e ser pago pra isso, é claro.

Seu pai gostou da idéia?
Não. Ele queria que eu fosse advogado, médico. Ficou muito chateado. Ele comprava o Daily Telegraph, que era um jornal de direita de Londres. Eu costumava ler de cabo a rabo todas as reportagens, correspondente de Moscou reportando o congresso comunista, a morte de Stálin, as notícias do Oriente Médio, é claro. Quando eu estava no segundo grau, sabia muito sobre as grandes guerras e estava totalmente obcecado pela idéia de me tornar jornalista.

E como foi o começo da carreira?
Praticamente implorei ao Times para me mandaram para a Irlanda. As batalhas pela independência estavam esquentando. Depois fui mandado, em 1974, para cobrir o estouro da Revolução dos Cravos em Portugal. Por isso eu sei ler português muito bem. Então, um belo dia, o correspondente no Líbano casou-se com uma mulher bilionária que não estava disposta a viver no meio da guerra civil. Ele me propôs o cargo no Oriente Médio. Me senti como o rei Faisal quando lhe ofereceram a Jordânia. "Sim!"

Você não teve medo?
Quantos anos você tem?

28.
Eu tinha acabado de fazer 29. Com essa idade você não pensa que vai morrer. Até hoje a maioria das pessoas acha que vai viver para sempre. E era uma proposta tão boa, do melhor jornal na época, a melhor história do mundo. Mas quando cheguei lá vi que não era divertido, era uma guerra de verdade.

E como se sentiu quando chegou lá?
Eu era jovem o suficiente para manter o otimismo sempre. Nos primeiros anos eu vi no chão a invasão soviética no Afeganistão, os comunistas combatendo os mujaidim (guerreiros santos, a base do Taleban). Estava no Irã na Revolução Islâmica, nos primeiros tiros da guerra Irã-Iraque, estilhaços voando, gente ferida para todo lado. Parecia que eu vivia uma vida bem charmosa, nada me atingia, nenhuma bala. E percebi naquela época que eu podia escrever muito bem.

Não mudou muita coisa de lá pra cá...
Eu tive uma namorada jornalista que me dizia: "quanto mais guerras você cobre, mais aprende a sobreviver. Quanto mais você vai para guerras, mais chance tem de morrer". É uma equação difícil de resolver.

Você tem algum prazer no risco? Em ver as bombas e os tiros?
Churchil dizia que nada é mais satisfatório do que atirarem em você e você não tomar o tiro. Olha, quando eu estava no sul do Líbano e a guerra estourou, usei meu medo para observar. Os aviões, as bombas, de onde os perigos vinham. Se você for atingido por acaso não pode fazer nada, mas se você não entrar em pânico em uma guerra tem que usar o cérebro e prestar atenção. Eu sempre volto a salvo para Beirute e escrevo histórias das pessoas que estão sofrendo, dos horrores. E claro que celebro no jantar que voltei vivo, mas isso não significa mesmo que eu tenha prazer no risco.

Qual o prazer, então?
Eu não faço só jornalismo, escrevo livros de história. E o jornalismo se confunde com isso. Eu te digo do que eu gosto mais. É quando vou para a casa que tenho na Irlanda, paro na frente de tudo que fiz, vou repassando para escrever um livro. Quando se trabalha muito como eu, todo dia, das 8h às 19h, você acaba não juntando peças importantes da situação como um todo. Quando eu tenho tempo e posso olhar com calma meus artigos, minhas anotações, livros, me dá um estalo.

Qual é a parte mais difícil do seu trabalho?
Não morrer. Se tem que ir ao front, sua função é reportar. Se você morrer é inútil, não vai contar a história. Um dos grandes problemas que eu vi na Guerra da Bósnia é que muitos correspondentes vieram de Nova York, de Londres, e não do Oriente Médio. Nunca tinha visto guerra. A experiência deles era a TV e Hollywood. E quando chegaram começaram a morrer. Morreram 38 jornalistas em 18 meses. É a mesma experiência que nossos presidentes e primeiros-ministros têm hoje. Nenhum líder ocidental de hoje esteve em uma guerra. Esses caras não sabem da responsabilidade de mandar os garotos. Tony Blair acha que é televisão, entende? Bush acha que é cinema. Ele até poderia ter ido ao Vietnã, mas fugiu com a ajuda do pai. Gente que vive no Oriente Médio, que viu diferentes guerras, aprende a evitar o perigo.

Como o senhor vê a cobertura de guerras hoje em dia?
Eu me lembro de quando os jornalistas americanos chegaram em Bagdá em 2003. Eu estava perto dos iraquianos, onde as bombas caíam, não estava acompanhando as tropas "aliadas" como quase todos. E aqueles jornalistas todos com cabelo cortado como soldados, usando algum uniforme militar, fumando cigarros e fazendo cara de mau. Era tão nítido que estavam representando um papel, algo que haviam visto na TV. É mais seguro? Sim. Mas não é o que eu chamo de jornalismo.

O que é jornalismo para o senhor?
Contar o que realmente está acontecendo, mas com uma premissa básica, que é desafiar a autoridade. Sempre, é o mais importante. Hoje a imprensa se acovardou ou se aproximou demais dos governos para questioná-los de fato. Os jornais repetem a retórica dos governos ocidentais sem o menor senso crítico. Dessemantizam tudo, distorcem a linguagem para que ninguém possa discordar. Chamam o muro que Israel construiu de cerca, os assentamentos de territórios disputados. E a palavra “terrorismo” então! Eu jamais a usaria no sentido comum.

Por quê?
Terror, terror, terror! Para que serve isso? Para gerar medo. E criar uma divisão definitiva de bem e mal. E vira a permissão moral para a violência de Estado de um modo vergonhoso. Quando se combate o terror vale tudo. Podemos torturar, matar crianças, mentir, esconder, manter Guantánamo. Porque estamos combatendo o “terror”. Ora, sejamos claros... o Ocidente fez atrocidades com o Oriente Médio durante tempo demais. E, pela nossa completa ignorância histórica, querem nos convencer de que eles nos odeiam porque somos livres.

O senhor está há 31 anos, mais da metade da vida, em Beirute. E é considerado um dos mais ferozes críticos da política do Ocidente. Ainda se sente um ocidental?
Ah sim! Ainda me sinto com 29 anos! Ainda estou no mesmo emprego, no mesmo prédio, vendo os mesmos aviões. Um salário um pouco melhor... Claro que sou um ocidental.


Mas não concorda muito com a visão do Ocidente.
Eu leio vorazmente livros de história, quase todos escritos por ocidentais, e não acredito nesse ridículo “conflito de civilizações”. Isso é pior que infantilismo, é coisa de bebê mesmo. O que me faz sentir como não-ocidental é ler gente falando em confronto de civilizações. O que eles escrevem não parece ter relação com o mundo em que vivo. E uma das razões pelas quais eu sou mais criticado nos EUA e na Europa, e escuto isso toda vez que dou palestras, é que não escrevo o que as pessoas querem ler. Eles querem saber do conflito de civilizações.

Se não é um confronto de civilizações, o que é a guerra contra o terror?
É sobre controle de petróleo e propriedade. Ponto. Não estamos no Iraque pela democracia, quem acredita nisso? Se o produto de exportação do Iraque fosse aspargos ou batatas não estaríamos lá. É uma guerra que serve para dar mais contratos para as companhias ocidentais.

Religião não tem a ver com isso?
Claro que há duas religiões por trás que se digladiam há tempos, mas não é o que importa. Só serve para perpetuar esses preconceitos terríveis de árabes e ocidentais. Nesse sentido o Bin Laden e os sociólogos americanos são exatamente a mesma coisa. Querem enxergar tudo como uma grande cruzada, uma briga do bem e do mal. Claramente Bush e Rumsfeld são pessoas amorais. Eles tratam religião como tratam o petróleo, são artifícios para conseguir o que querem.

Falando em Bin Laden, o senhor o entrevistou três vezes. Como ele é?
Ele tem uma tremenda autoconfiança, é impossível ter uma discussão com ele porque ele está com a verdade. Igual ao Bush. Ele se enxerga como uma figura religiosa.

Ele tentou te convocar para uma entrevista depois do 11 de Setembro?
Sim, no Afeganistão. Ele queria me encontrar, mas eu tinha outros compromissos. Robert Fisk não é cachorrinho. Eu não apareço quando alguém estala os dedos, tenho minha agenda, minhas prioridades, e Bin Laden não é uma delas. Depois ele se referiu a mim em vídeos. No que foi divulgado antes da última eleição americana, disse que se a Casa Branca quisesse saber o que realmente acontece no Oriente Médio deveria ler Robert Fisk. Bem, obrigado, Bin Laden, mas eu poderia ter passado sem essa no currículo. Tipo: “Eu leio o Independent. Assinado Osama Bin Laden”. E Zawahiri deu uma declaração há pouco tempo dizendo que eu deveria sair de cima do muro e me tornar um muçulmano. Bem, senhor Zawahiri, deixa que eu decido minha religião, pode ser?

E o Bush, o senhor já entrevistou?
Não. Não tenho interesse nenhum. Já o vi de perto em conferências, mas não teria nada para perguntar para ele. Iria mentir em tudo mesmo.

Já foi ameaçado por governos ocidentais de alguma forma?
Bem, o gabinete britânico já me concedeu o título de "jornalista mais impreciso da Inglaterra". Isso vindo de um primeiro-ministro mentiroso deve ser um elogio, eu ficaria triste se ficasse de fora da lista. Mas ameaças de governos não. Eles não seriam bobos de fazer algo comigo. A ameaça vem de outro lugar.

De onde?
Eu te digo. Há uns anos o ator John Malkovich respondeu a uma pergunta em uma palestra, dizendo que gostaria de me dar um tiro. Depois me chamou publicamente de um nojento anti-semita. O caso é que na internet, algo que não uso, blogs começaram a aparecer dizendo que Malkovich havia dado a dica. Fotos minhas com sangue no rosto começaram a ser publicadas. Só precisa de um cara com uma arma para me matar. E lá isso não é difícil... Então acho que a maior ameaça que sofro são essas da internet, do John Malkovich. Não as dos Blair e Bushes.


O senhor tem filhos?
Não.

Nunca quis?
Nunca pensei nisso.

Sério? Por causa do trabalho?
Não. Me viro bem sozinho. Fico bem assim.

Não sente falta de família, companhia?
Quantas vezes quer que eu responda?

Qual seu maior medo?
Tirando ser morto? Não sei te responder. Preciso pensar mais.

O senhor acredita em sorte?
Eu não acredito não. Nem no destino, no maktub árabe. Eu acho que se o cérebro se mantém lúcido você salva sua vida. Acreditar em sorte é como acreditar em religião. Você começa a ficar supersticioso. Dá pra usar as palavras azar e sorte como imagens para coisas boas ou ruins que acontecem, no fundo, por acaso.

O que o senhor sentiu quando ficou sabendo do 11 de Setembro?
Eu estava em um avião, a caminho dos EUA quando recebi a notícia. Quando soube que alguns aviões haviam sido seqüestrados, fui na cabine do piloto conversar. E saímos, comissários e eu, procurando passageiros suspeitos. Naquela hora o velho liberal pró-árabe Robert Fisk se tornou um racista. O que eu senti naquele dia foi que a Al Qaeda estudou Hollywood melhor que nós. Al Qaeda Produções apresenta11 de Setembro. Eles viraram o espelho na cara de Hollywood, que criou monstros muçulmanos na tela por décadas. De repente. Eles estão vivos! Mas eu vi atos de extrema violência muitas vezes. Vi a embaixada americana explodir em Beirute, senti a pressão do ar mudar no meu quarto por causa de bombas, vi americanos derrubando prédios com mísseis na minha frente. Claro que fiquei muito impressionado. Mas para alguém como eu... não fiquei surpreso.

O senhor previa de certa forma?
Eu sabia que, em algum ponto, a coisa iria estourar. Eu fiz um filme para a BBC em 1992, chamado De Beirute a Bósnia. No filme eu mostro uma mesquita pegando fogo. E digo: “Quando muçulmanos fazem coisas assim, nós os chamamos de terroristas. Olhando o que o Ocidente fez com esse templo, eu me pergunto o que os muçulmanos estão preparando para nós. Acho que deveria encerrar todos os meus textos com ‘Cuidado!’” Escrevi muitos artigos depois dizendo que uma explosão iria acontecer, que dava pra sentir pelas minhas fontes no Oriente Médio. Falando “Cuidado!”.

Você acha possível que os EUA soubessem do 11 de Setembro antes dos ataques, como sugere Michael Moore no seu filme?Esqueça o Michael Moore. Ele não sabe de nada. Fez um filme inteiro sem citar Israel uma só vez. No dia 9 de setembro uma mensagem chegou à CIA dizendo que aviões seriam usados para atacar prédios. O governo sabia que um atentado ocorreria. Mas no dia 11, em Nova York? Duvido. Acho que Dick Cheney e Rumsfeld discutiram que se houvesse um ataque nos EUA eles poderiam implantar sua agenda no Oriente Médio. Isso é tudo em que posso acreditar.

Se os democratas assumirem a Casa Branca alguma coisa muda?
Não. Os EUA vão sair do Iraque e vão convencer o público pelos jornais de que “fizemos o possível, mas eles não querem a democracia, não são civilizados”. Agora, a política mais importante dos EUA no Oriente Médio, que é apoiar Israel, não vai mudar. E, se isso não muda, nada muda. Fim de papo.

Você acha que Israel vai mudar sua política no Oriente Médio?
Quando vou para Israel falo com liberais de esquerda que querem ver um governo que traga a paz. Mas liberais não são a maioria por lá. Eu vejo a nação que destrói o Líbano como no ano passado, que bombardeia casas de famílias para dar o troco... Essa é a que está no poder e não vejo vontade séria de mudar. Eu acho que a única saída para a paz é que Israel respeite a resolução 242 da ONU, que determina que retirem todas as tropas dos territórios ocupados de 1967 para cá. Ponto final. Mas, enquanto Israel tiver apoio dos EUA para fazer o que quiser, não interessa a opinião de ninguém.


A paz é uma perspectiva realista no Oriente Médio?
Todo mundo quer paz, exceto os totalmente loucos. Agora... existe a paz em que todos têm direitos iguais e existe a paz em que um quer espancar o outro até que ele se conforme com a submissão. Nós queremos provar aos árabes quem são os fortes, quem é que manda. Como se não pudéssemos mostrar nenhuma fraqueza. E as pessoas que conheço no Líbano não se impressionam com força, elas se impressionam justamente com fraqueza, porque faz com que fiquemos mais próximos, mais humanos. A decisão está aí.

Você pensa em mudar de vida, parar de ser repórter?
Sim. Eu sempre penso em me tornar acadêmico seis meses por ano, lecionar história irlandesa, que é minha maior especialidade. Ser o dr. Fisk. E quero escrever roteiros de cinema. Filmes têm um poder inesgotável de convencimento, mais do que o jornalismo. Sou muito fã de cinema, sempre vou a festivais.

Você tem um roteiro em produção?
Passo a pergunta.

O senhor cobre uma região onde religião e fé são questões de vida ou morte. O senhor acredita em Deus?
Eu vivo no único lugar onde a fé ainda existe. O Ocidente já a perdeu faz tempo. Claro que no Texas tem um monte de gente que se diz cristão, mas não importa. Em geral ocidentais só acreditam em Deus quando estão morrendo, muito doentes, em apuros, se casando. Mas se eu acredito... tive uma discussão com meu motorista e meu mediador, um é sunita e o outro xiita, sobre vida após a morte. No final eles me perguntaram se eu acreditava em Deus. E estávamos em uma estrada cruzando montanhas lindas, com neve no topo, árvores maravilhosas no sopé, o céu azul. E eu disse: não me diga que isso está aqui porque há 5 bilhões de anos duas nuvens de gás se chocaram. Claro que não conseguimos pensar, sentir amor, porque criaturas do mar aprenderam a andar. Há algo sim, mas não sei dizer mais do que isso.

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