segunda-feira, setembro 17, 2007

O BRASIL EM CRISE DE IDENTIDADE

Índices econômicos, sozinhos, não retratam as nuances do desenvolvimento de uma nação. É o caso dos surpreendentes números de crescimento do PIB, divulgados nesta quarta (12 de setembro) pelo IBGE. Índices, é bom lembrar, são, apenas, um bom começo para entendermos porque um país – o Brasil, por exemplo – é desta ou daquela forma, e quais as alternativas que se colocam para ele.

Feita a ressalva, é bom observar a pesquisa “Especialização do Brasil no mapa das exportações mundiais”, publicada no boletim Visão do Desenvolvimento, editado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Ali estão algumas das razões da nossa crise de identidade, da encruzilhada em que se encontra o Brasil, um País que bate sucessivos recordes de produção e, ainda assim, tem uma das piores distribuições de renda do planeta.

O estudo mostra que nos últimos 20 anos os países com maior especialização em setores intensivos em tecnologia foram os que alcançaram maiores taxas de crescimento econômico, enquanto “os especializados em recursos naturais [caso do Brasil] tiveram pior desempenho, apesar da recente importação chinesa de commodities”. observa o texto do “Visão”, assinado por Fernando Puga, economista do Banco.

Mesmo que o Brasil se diferencie das demais nações de seu grupo “por agregar simultaneamente vantagens em termos de pesquisa científica na produção de alimentos, desenvolvimento de tecnologia de exploração de petróleo e elevada eficiência na logística de exploração mineral”, o Brasil não foi capaz de traduzir a a massiva exportação de natureza em ganhos econômicos.

As estratégias econômicas que o País adotou nas últimas décadas - quando vicejaram os conceitos de abertura comercial e desregulamentação financeira, associadas à exploração intensiva de natureza - trouxeram poucos benefícios sociais para o Brasil. Temos exportado minério, grãos, madeiras, álcool, papel e celulose e produtos de minerais não-metálicos em crescentes quantidades, sem que isso se traduzisse em bem estar para a maioria da sociedade.

A pesquisa publicada pelo BNDES confronta o Brasil com 156 nações e compara a participação de um setor na pauta exportadora de um país com a participação desse mesmo setor nas exportações mundiais. Mostra que a ênfase no apoio e na exploração de determinados setores indica o grau de evolução de uma economia. Quanto mais evoluída, mais tímida deve ser a exploração de recursos naturais.

Nada garante, porém, que a mera opção por outro perfil de exportações alterasse o nosso modelo de desenvolvimento. Afinal, o que realmente define o grau de desenvolvimento de uma Nação é a adoção de estratégias várias, inclusive econômicas, para desconcentrar renda, ampliar direitos e aprofundar o exercício da democracia, além da agregação do máximo valor científico e tecnológico à produção.

Foi exatamente que fizeram os EUA, o México (citado somente por conta das exportações “maquiladas” do Nafta), Centro e Norte da Europa e o sudeste da Ásia, regiões que se especializaram em um tipo de exportação que proporcionou as maiores taxas de crescimento nas últimas duas décadas.

Eles incentivaram os setores intensivos em tecnologia diferenciada e baseada em ciência (máquinas e equipamentos, máquinas de escritório e informática, aparelhos elétricos, material eletrônico e comunicações, instrumentos médicos e óticos, aviação/ferroviário/embarcações e motos), maior será a sua probabilidade de crescimento econômico.

O Brasil ficou numa posição intermediária em todos os quatro grupos de setores produtivos pesquisados: os baseados na exportação de recursos naturais, na exportação de produtos intensivos em trabalho, nos intensivos em escala e nos diferenciados e baseados em ciência – outra evidência de nossa crise de identidade.

Resolvê-la é a tarefa da sociedade, mas isso exige coragem. Coragem do tipo que os senadores não tiveram ontem, quando se associaram à renan Calheiros. (Também publicado em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?cod_Post=73338&a=112)

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