sábado, setembro 01, 2007

RECORDES DO ATRASO

Símbolo do capitalismo, da queima de combustíveis que polui o ar e do individualismo, o automóvel é indicador da falta de consciência ambiental e do tipo de desenvolvimento que um país adota. Quanto maior o número de automóveis produzidos, mais recursos naturais são consumidos – eletricidade, aço, petróleo etc – e mais combustível fóssil é queimado.

Ou, seja, estamos mal, porque a produção de automóveis no Brasil não pára de bater recordes.

Segundo a Anfavea – a associação dos grandes fabricantes de veículos –, a produção conjunta de seus afiliados alcançou, em julho, 268 mil unidades e, no ano, 1,652 milhão de veículos, com expansão recorde de 8,4%. O licenciamento de veículos em julho (217,4 mil) é também recorde. No ano, 1,3 milhões de licenciamentos, 26,6% a mais.

Além dos fabricantes de automóveis, outros agentes econômicos também devem ter soltado foguetes para comemorar a quebra dos recordes. Por exemplo, o governo, que tem na indústria automotiva uma enorme fonte de impostos, e a imprensa, que ganha rios de dinheiro com o anúncios de novos e velozes carros.

Assim, é o caso de perguntar: o aumento na produção de veículos é, em si, realmente uma boa notícia? O conjunto da sociedade ganhou com o despejo de tantos novos automóveis ao meio das ruas?

A engenheira química Sônia Hess, professora da Universidade Federal do Mato do Sul, é uma das que acham que tais recordes são sinal de atraso. Sônia, que tem dois pós-doutorados na sua área, integra um grupo de pesquisadores que vem alertando para os danos invisíveis do surto econômico sul-mato-grossense. Ela chama a atenção para o caso da produção de aço em seu estado, que majoritariamente se destina à produção automotiva, denunciado a relação entre o consumo de recursos naturais para produção do aço, o “sucesso” da indústria automobilística e o papel do governo brasileiro nessa tragédia do desmatamento, mostrando que o tipo de crescimento viabilizado econômica e politicamente pelo Estado é a mãe da maioria das tragédias nacionais.

“Todos os dias, são derrubadas mais de 120.000 árvores da floresta amazônica para sustentar os fornos do pólo siderúrgico de Carajás, situado no sul do estado do Para. Por isso, aquela região é conhecida como o Arco do Desmatamento da Amazônia, que inclui também o sul do estado do Maranhão, e onde está ocorrendo a maior devastação da floresta amazônica”, escreveu Sônia no jornal da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em 7 de agosto.

“O governo brasileiro instalou, naquela região, mais de 200 mil famílias de trabalhadores rurais sem terra, que têm como única opção de sobrevivência a prática do desmatamento para fornecer carvão para as industrias siderúrgicas de Carajás, lideradas pela companhia Vale do Rio Doce. Em Mato Grosso do Sul, as siderúrgicas instaladas nos municípios de Corumbá (MMX), Campo Grande (Sideruna), Ribas do Rio Pardo (Vetorial) e Aquidauana consomem mais de 3 mil toneladas de arvores na forma de carvão diariamente, causando a rápida destruição das matas nativas do Cerrado e do Pantanal”, denuncia Sônia, lembrando que Europa e os EUA compram 22% do aço brasileiro.

A sociedade brasileira precisa começar a solucionar o tipo de problema observado pela professora. Principalmente agora que está se consolidando um novo ciclo de crescimento econômico que aprofunda, como nunca antes, a utilização de recursos naturais e de mão de obra não qualificada para atender ao mercado externo.

O exemplo mais típico desse ciclo – que tem a sua base na superexportação de mercadorias com baixo valor agregado - é a febre no mercado do etanol, que a cada dia anuncia mais uma batelada de enormes negócios. E, como sempre, tendo o Estado como incentivador e financiador. (Também publicado em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?cod_post=71748 )

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