terça-feira, outubro 10, 2006

"PRIVATIZAÇÃO DA AMAZÔNIA” É A PONTA DO ICEBERG

Passou quase despercebida a grave denúncia publicada em página interna da Folha de São Paulo em 3 de outubro, “Governo inglês divulga plano para privatizar a Amazônia”, sem que até hoje o Ministério das Relações Exteriores tivesse se manifestado sobre o que seria um grave atentado contra a soberania dos nove países da Bacia Amazônia – em especial o Brasil, que detém cerca de 70% da região.

Porém, essa proposta pode ser apenas a ponta de um iceberg. Em verdade, ela encobriria o debate sobre o Banco Mundial, que passa por uma reorientação para manter a hegemonia dos EUA e encontrou na mudança da matriz energética mundial uma janela de oportunidade.

A matéria da Folha se baseava em artigo do jornal inglês Daily Telegraph (http://www.telegraph.co.uk/news/main.jhtml?xml=/news/2006/10/01/namazon01.xml). Dois dias antes, o Telegraph revelou as sugestões do ministro inglês do meio ambiente, David Miliband, com o apoio do Primeiro Ministro Tony Blair, para transformar a floresta amazônica em um consórcio internacional e vender as árvores a “acionistas” que manteriam a floresta em pé.

Miliband atribuiu tudo a uma “distorção” do Telegraph, conforme O Estado de São Paulo em 4 de outubro. Entretanto, a desculpa clássica perde força diante do fato de o texto do tradicional jornal inglês ter sido escrito pelo editor de política da publicação inglesa, Patrick Hennessy, um dos mais importantes jornalistas na hierarquia da empresa.

O objetivo do ministro seria deter a emissão de gases causadores de mudanças no clima no planeta, provocada pelos incêndios na mata. O desmatamento da região amazônica caiu 31%, de 2004 para 2005, mas, no ano passado, ainda foram desflorestados 18.793 quilômetros quadrados.

O Telegraph diz ainda que ”Uma figura chave por debaixo dos panos tem sido Johan Eliash, o multibilionário homem de negócios nascido na Suécia, que é tesoureiro executivo do Partido Conservador [de Blair]. No início o ano, ele comprou 400 mil acres de floresta amazônica por estimados 8 milhões de libras”.

Segundo o The Sunday Times (http://www.timesonline.co.uk/article/0,,2087-2092492,00.html), Eliash, representante do que o jornal chama de movimento de “colonialismo verde”, teria adquirido em janeiro uma área, sem localização precisa, ao norte do rio Madeira (Rondônia)

No blog de Miliband (http://www.davidmiliband.defra.gov.uk/blogs/ministerial_blog/default.aspx) o ministro inglês diz que a proposta seria apresentada em Monterey, México, uma semana depois, na reunião do G8 (o grupo dos sete países mais ricos e a Rússia, que nem é tão rica assim, mas possui três instrumentos de poder global: gás natural, petróleo e armas atômicas).

O G8 se encontrou com os 12 maiores emissores de gases de mudança no clima, Brasil entre eles, e colocaria em discussão as diretrizes do Banco Mundial para o financiamento de fontes renováveis de energia - a razão de fundo para a realização do evento.

Em busca de uma nova identidade após o fracasso da onda neoliberal, o Banco tenta se transformar no grande agente da nova economia ecológico-global e quer se tornar o maior broker de créditos de carbono do planeta, numa tentativa de transformá-los no sucessor do dólar estadunidense como moeda padrão da economia mundial.

Assim, o Banco, um dos principais vetores da hegemonia dos EUA no sistema financeiro, se anteciparia ao eventual fim da exploração economicamente viável do petróleo, o que se aguarda para um horizonte de 40 a 50 anos. Isto significaria uma ameaça à supremacia mundial de Washington, que baseia seu poder na capacidade militar e na articulação entre o monopólio da emissão de dólares com o controle das maiores reservas de petróleo do planeta.

Em Gleaneagles, o G8 determinou que o Banco Mundial elaborasse uma nova abordagem para o financiamento a energias renováveis e que a submetesse à reunião da entidade com o Fundo Monetário Internacional realizada em setembro, na ilha-Estado de Cingapura (uma cópia - vazada e não-oficial - do documento está em http://www.seen.org/PDFs/CEIF_aug06.pdf).

Propostas estapafúrdias como a de Miliband só vicejam porque há no Brasil um enorme caldo de cultura que viabiliza tais elucubrações. O País mistura a falta de prioridade na regularização e controle fundiário de vastas porções da Amazônia com uma absurda ausência de política pública para enfrentar o problema das mudanças no clima.

E, lá no fundo, o que possibilita tudo isso é o desinteresse de toda a sociedade brasileira - incluindo governo, universidades e imprensa – pela região Amazônia e pelos incidentes climáticos que vêm crescendo de gravidade no País.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Pela substância e lucidez de raciocínio, vou tomar a liberdade de referir esta posta. Octávio Lima (ondas3.blogs.sapo.pt)

4:53 PM  

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