terça-feira, novembro 07, 2006

AMÉRICA LATINA: UMA OCASIÃO IMPERDÍVEL

Por Mário Soares (*)

Lisboa, outubro/2006 – A América Latina tem pela frente uma grande oportunidade para garantir um bom desenvolvimento sustentável. Precisa aproveitá-la. George W. Bush e Tony Blair estão inevitavelmente chegando ao final de seus mandatos, sem glória nem êxito. Por outro lado, o neo-liberalismo que quiseram implantar em nível universal está dando evidentes sinais de esgotamento.

O reformismo econômico-social-ambiental é o único caminho possível que conduz à paz e ao progresso. Mas é absolutamente necessário que o reformismo moderado (adotado por Chile, Argentina, Brasil e Uruguai, entre outros) não entre em conflito com o reformismo radical de
países como Venezuela e Bolívia. É importante para ambos reformismos que assim seja.

O desprestígio da política dos Estados Unidos (e da União Européia por omissão e complacência diante dos Estados Unidos), é muito grave para o Ocidente. Explica a arrogância com a qual alguns países agora se permitem desafiar as potências hegemônicas, cujas fragilidades foram colocadas à
prova pela Coréia do Norte e pelo Irã, entre outros países, e estão favorecendo um realinhamento das potências mundiais.

Não somente as potências chamadas emergentes, os BRICs: Brasil, Rússia, Índia, China, mas também por Japão, Indonésia, África do Sul e, obviamente, América Latina, cujos hispânicos começam a ser uma preocupação para os Estados Unidos protestante, branco e de íngua inglesa. Veja-se o último livro de Samuel Huntington.

A administração Bush, devido às dificuldades nas quais se envolveu nos últimos anos, descuidou um pouco da tradicional vigilância dos Estados Unidos em relação aos seus vizinhos do sul. Isto facilitou uma certa evolução positiva no plano econômico, social e político da região, sobretudo no Mercosul e nos países da Região Andina. Tudo está em desenvolvimento acelerado e pressente-se um esforço de integração solidária com o claro respeito das identidades nacionais que parece ser um bom presságio.

O modelo de livre-comércio, como a democracia, está caindo em desuso, dando lugar a teses reformistas, moderadas e radicais. Parece que as reformistas têm mais visibilidade internacional, embora, talvez, não se revelem, nos próximos anos, com as mais eficazes. Mas não há dúvida de que a importância dada um modelo econômico sustentável, com uma autêntica dimensão social
para assim fomentar sociedades mais igualitárias e justas, e uma dimensão ambiental, tão decisivamente importante hoje para a sobrevivência do planeta, tende a aproximar os países latino-americanos da UE, o que considero, como português, ibérico e europeu, extremamente proveitoso
para as duas partes.

Estou convencido de que Espanha e Portugal terão aí um papel importante e que a presidência portuguesa da UE, que terá lugar no segundo semestre de 2007, fará tudo o que estiver ao seu alcance para estimular as relações de solidariedade entre a América Latina (e não só o Mercosul) e a União Européia.

Não esqueçamos que a grande maioria dos países latino-americanos fala espanhol ou português, idiomas próximos e compreensíveis entre si, o que hoje constitui um conjunto lingüístico em expansão falado por cerca de 800 milhões de seres humanos (220 milhões português, 550 milhões espanhol), nos cinco continentes, o que representa a décima parte da população mundial.

Entretanto, é possível que a situação internacional registre uma distensão. Acredito que é possível evitar o conflito entre Irã e Estados Unidos através de negociações, em uma primeira fase mediadas pela União; se a intervenção, sob patrocínio das Nações Unidas no Líbano, incentiva uma solução de paz, que convém totalmente a Israel, até para facilitar o regresso indispensável ao diálogo entre Israel e Palestina, sem o qual não haverá paz, estabilidade nem progresso no Oriente Médio; Se a presidência alemã da União, no primeiro semestre de 2007, der, como espero, um novo impulso à construção européia, é muito possível que se assista a uma distensão internacional, muito necessária para estimular a economia mundial, tão afetada com o crescimento em flecha do preço do petróleo.

Da capacidade dos dirigentes latino-americanos para estabelecer uma ponte de convergência entre os dois reformismos pode depender a abertura de uma oportunidade única para toda a região. Com a solidariedade ibérica e, conseqüentemente, da União Européia, poderá ganhar impulso na região um novo ciclo de afirmação e progresso que tanto necessita do mundo tão conturbado e inseguro de nosso século XXI. (IPS/Envolverde)

(*) Mario Soares, presidente de Portugal no período 1986-1996.

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